Relatório da Ciops revela desespero da vizinhança em tentar convencer a polícia, pelo fone 190, de que ex-suplente de vereador de Fortaleza estava prestes a assassinar a ex-esposa.
O desfecho da tragédia passional que deu no assassinato da pedagoga Andréa Aderaldo Jucá, esfaqueada 20 vezes pelo ex-marido Alan Terceiro, mostra que a Segurança Pública no Ceará se arrasta numa gestão que acumula vícios e distorções administrativas. A demora no envio de socorro ao local onde se daria o homicídio e a dificuldade em se acionar uma viatura, apesar da enxurrada de telefonemas para o 190, podem ter contribuido para a morte de Andréa.
Os fatos exclusivos que serão revelados a seguir (leia o quadro), com base em registros da própria Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), apontam para um cenário confuso, falta de iniciativa e crise de comando em um setor crucial para o combate ao crime em Fortaleza: o atendimento da Ciops.
Andréa Jucá, 39 anos, ex-secretária municipal de Finanças de Madalena e mãe de três filhos, morreu sem chance de defesa e gritando por um socorro público que chegou tarde. Vinte e três minutos depois, como registra a Ciops. Ou mais de 40 minutos, segundo denuncia de quem ligou e não conseguiu o contato com o 190.
Era domingo, último dia 13, quando a moradora do bairro Rodolfo Teófilo foi acuada dentro de casa pelo ex-marido e ex-suplente de vereador Francisco das Chagas Filho, conhecido como Alan Terceiro. O conflito, inicialmente de natureza privada, virou caso de polícia quando as atitudes violentas de Alan começaram a provocar desespero na vizinhança e ecoaram na rua onde Andréa morava.
Eram 14h14min35s quando uma operadora da Ciops recebeu o primeiro pedido de socorro para Andréa Jucá. Uma vizinha, que pede para não ser identificada, se apavorou com os gritos dela e recorreu ao 190. No registro, a atendente da Ciops escreve que se trata de uma “briga de família” e que há uma “mulher gritando por socorro”. A funcionária até tenta deslocar uma viatura da PM para o número 1156 da rua Frei Marcelino, próximo à igreja São Raimundo. Mas recebe uma negativa e escreve no relatório que a “viatura do Ronda da área em rendição e o P.O.G. (Policiamento Ostensivo Geral) está indisponível no momento”.
Quase dois minutos depois, a mesma vizinha volta a ligar para a Ciops e suplica por uma intervenção policial. Dessa vez é um operador que atende. Sem sucesso. No relatório, às 14h15min40s, ele escreve que a “solicitante pede, muito nervosa, uma viatura. Ela informa que a vizinha está gritando por socorro”. Ele também registra que há “ocorrências duplicadas”, ou seja, outras ligações denunciando o mesmo crime em andamento.
Outro vizinho liga às 14h16min57s, o telefone dele consta no relatório da Ciops. Ele alerta para “uma briga de casal próxima ao número 1190” e “pede uma viatura para local, pois o marido está batendo muito na mulher”. Ao O POVO, o homem descreve os minutos que se passaram - entre o espancamento e o assassinato de Andréa - como “torturantes”. Para ele, “a covardia de Alan Terceiro transformou aquele domingo quieto num dia de terror. Aquela mulher lutou muito para não morrer”.
Apesar da prioridade da ocorrência ter mudado de 9 para 1, a Ciops não conseguiu acionar, com urgência, uma viatura para tentar conter o ato violento de Alan Terceiro contra a ex-esposa Andréa.
Entre a primeira denúncia e o instante provável da morte de Andréa, pelo menos seis vizinhos ligaram, repetidamente, para a polícia.
A primeira pessoa a alertar a Ciops sobre o que se passava na casa da vítima teve o telefone celular anotado cinco vezes no relatório da ocorrência da pedagoga. “Até agora não me alimento direito e não consigo deixar de ouvir ela gritar por ajuda. Liguei tanto para a polícia que meus dedos endureceram. Depois saí gritando pela rua, que estava um deserto. Era pra ver se todo mundo telefonava para o 190”, conta a senhora.
Em meio ao desespero, e à espera de uma patrulha, os populares só decidiram arrombar a porta da casa quando Andréa parou de gritar. De repente, lembra um vizinho, bateu um silêncio. “Poderíamos ter entrado, sei lá? Fiquei, depois, me perguntando”.
Logo após o arrombamento, a RP 5585 chegou ao local. Não adiantava mais.
FONTE: O POVO ONLINE.

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