Brasília. A presidente Dilma Rousseff (PT) decidiu ontem não ir a Washington no próximo mês, no que seria a primeira visita de Estado de um presidente brasileiro em 18 anos.
De acordo com a mandatária brasileira, o governo norte-americano não pediu desculpas e nem forneceu informações convincentes sobre a espionagem no Brasil, que a tingiu a comunicação da presidente com assessores FOTO: REUTERSEm nota, ela alegou que "tendo em conta a proximidade da programada visita de Estado a Washington - e na ausência de tempestiva apuração do ocorrido, com as correspondentes explicações e o compromisso de cessar as atividades de interceptação - não estão dadas as condições para a realização da visita na data anteriormente acordada".
A decisão da presidente é um duro golpe nas relações entre Brasil e EUA, que melhoraram sensivelmente desde a posse de Dilma em 2011, mas foram abaladas pelas denúncias de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) espionou e-mails, mensagens de texto e telefonemas entre a presidente e assessores dela.
O anúncio de Dilma foi feito depois de o presidente norte-americano, Barack Obama, ter telefonado na segunda-feira para ela, numa tentativa de evitar o cancelamento da visita de Estado da brasileira aos Estados Unidos no mês que vem. A presidente havia dito ao colega ter dificuldades para manter a viagem marcada para o dia 23 de outubro.
Dilma diz, por meio de comunicado da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, que coube aos dois presidentes decidir pelo adiamento da viagem, "pois os resultados dessa visita não devem ficar condicionados a um tema cuja solução satisfatória para o Brasil ainda não foi alcançada". Apesar do anúncio de adiamento dos dois governos, duas fontes com conhecimento da decisão tomada pela mandatária brasileira disseram que a viagem dificilmente acontecerá em breve.
"O governo brasileiro tem presente a importância e a diversidade do relacionamento bilateral, fundado no respeito e na confiança mútua", diz a nota. "As práticas ilegais de interceptação das comunicações e dados de cidadãos, empresas e membros do governo brasileiro constituem fato grave, atentatório à soberania nacional e aos direitos individuais, e incompatível com a convivência democrática entre países amigos", continua.
A presidente também afirma, na nota, que o País "confia que, uma vez resolvida a questão de maneira adequada, a visita de Estado ocorra no mais breve prazo possível, impulsionando a construção de nossa parceira estratégica e patamares ainda mais altos".
A presidente decidiu não ir a Washington após acusações de que ela e a Petrobras foram alvo de espionagem pela NSA, de acordo com reportagens do "Fantástico", da TV Globo, neste mês.
A ideia defendida por interlocutores da presidente é que a espionagem permearia grande parte das conversas, o que não seria vantajoso para o Brasil.
As revelações partiram de documentos secretos obtidos pelo jornalista Glenn Greenwald com Edward Snowden, ex-técnico da NSA, asilado na Rússia. Os papéis mostraram que a comunicação entre mandatária brasileira e assessores foi monitorada pela agência americana.
Na avaliação da presidente, os EUA não pediram desculpas e não deram explicações convincentes sobre a espionagem no Brasil, que atingiu a comunicação da própria presidente com auxiliares. O país inclusive deu a entender que manteria a prática de monitorar o Brasil.
Categoria diplomática mais alta concedida a estrangeiros, a visita de Estado é reservada a parceiros estratégicos mais próximos dos EUA e implica em formalidades como um jantar de gala na Casa Branca e uma cerimônia militar na chegada.
Tentativa de diálogo
Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, viajou a Washington para discutir as denúncias de espionagem com a conselheira de Segurança Nacional de Obama, Susan Rice. Após o encontro, a Casa Branca disse que as alegações recentes "levantaram questões legítimas em nossos amigos e aliados" sobre a inteligência norte-americana.
Autoridades dos EUA afirmam que o monitoramento realizado pela NSA tem o objetivo de detectar atividades suspeitas de terroristas e não de bisbilhotar comunicações internacionais. O governo brasileiro, no entanto, rejeitou o argumento de Washington de que os EUA buscam apenas reunir informações críticas para a segurança nacional norte-americana. O Brasil é uma democracia pacífica sem histórico de terrorismo.
Deputados da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados oficializaram ontem pedido ao governo da Rússia para ouvir Edward Snowden. Segundo o líder do PSOL, Ivan Valente (SP), o embaixador da Rússia no Brasil, Sergey Okopov, ficou de avaliar o pedido com o governo de seu país.
Obama lamenta adiamento e promete novo encontro
Washington. A Casa Branca divulgou nota oficial na qual o secretário de Imprensa, Jay Carney, afirma que o presidente americano, Barack Obama, concordou que o adiamento da visita de Estado que a presidente Dilma Rousseff faria a Washington em 23 de outubro era a melhor solução diante do impasse entre Estados Unidos e Brasil.
Obama disse que está comprometido com o trabalho conjunto com a presidente Dilma e seu governo em canais diplomáticos FOTO: REUTERSA situação embaraçosa foi provocada pela descoberta de ampla espionagem de alvos brasileiros, incluindo a mandatária brasileira, alguns assessores próximos e a Petrobras.
Obama e Dilma teriam concluído juntos que o escândalo provocado pelo monitoramento ostensivo, que provocou tensão nas relações bilaterais, ofuscaria os demais pontos da vasta agenda comum dos países, uma vez que até o fim de outubro os EUA não terão concluído a "ampla revisão da postura da Inteligência americana", conforme determinado pelo democrata.
"O presidente já afirmou entender e lamentar as preocupações que a revelação de informações sobre supostas atividades da Inteligência dos EUA gerou no Brasil e deixou claro que ele está comprometido com o trabalho conjunto com a presidente Dilma Rousseff e seu governo em canais diplomáticos para ultrapassarmos este assunto como fonte de tensão em nossa relação bilateral", disse o porta-voz.
Segundo Carney, Obama determinou ampla revisão da postura da Inteligência americana, mas este processo levará meses até ser completado. "A visita de Estado não deve ser ofuscada por um único assunto bilateral, a despeito de sua importância ou do desafio que representa. Por esta razão, os presidentes concordaram em adiá-la", afirmou.
Na nota, a Casa Branca enalteceu a parceria estratégica com o Brasil, que é "enraizada nos valores democráticos que compartilham e no desejo de avançar crescimento econômico e criação de empregos amplos".
O texto diz ainda que Obama "aguarda receber a presidente Dilma Rousseff em Washington em uma data a ser mutuamente acordada", e concluiu que "outros importantes mecanismos de cooperação, incluindo os diálogos em Política, Economia, Energia e Defesa, continuam".
Decisão é ´marketing´, diz oposição
Brasília. A oposição reagiu ontem ao adiamento indefinido da viagem de Estado que a presidente Dilma Rousseff faria aos Estados Unidos em outubro. Para senadores do PSDB e do DEM, a decisão do Palácio do Planalto levou mais em conta uma estratégia de marketing eleitoral do que os interesses do País.
"Apoiamos uma reação forte da presidente Dilma de repúdio à espionagem. Mas, achamos que ela faz mal em cancelar a viagem, porque ela deveria aproveitar para dizer na Casa Branca que espionagem é intolerável. No contexto em que foi tomada a decisão do cancelamento da viagem, fica claro que houve uma confusão entre diplomacia e marketing político" disse o líder do PSDB, Aloysio Nunes (SP).
O adiamento da visita também repercutiu na imprensa internacional. Segundo o jornal americano "Washington Post", as explicações de Obama não surtiram efeito e Dilma foi pressionada pelo PT para ficar no País.
FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE
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