Todos os dias, Daniel levanta da cama antes do sol nascer e, sem esperar que o café fique pronto, sai para o trabalho que fica a poucos metros de sua casa, no bairro Alto da Alegria, em Barbalha. O menino, que teve a verdadeira identidade preservada, tem 14 anos, mas segue uma rotina dura no emprego, trabalha seis horas e meia por dia, de segunda a sábado, em um sítio. Entre as tarefas do adolescente está cuidar de cavalos e de algumas vacas, alimentando e dando água. Além dessa função, o jovem precisa percorrer, diariamente, uma distância de mais de seis quilômetros, em uma carroça, para buscar óleo de motor e “baba” de cana de açúcar, usada para complementar a alimentação animal.
Filho de pais separados, Daniel, que mora com a mãe e duas irmãs mais novas, não está sozinho. Ele tem ajuda de outro jovem com a mesma idade, mas que trabalha o dobro, das cinco da manhã às cinco da tarde, no mesmo local. Ambos estudam, um no horário da tarde e o outro à noite. Os dois adolescentes contam que o dinheiro que ganham (R$ 60,00 por semana) é usado para comprar ‘coisas pessoais’ e ajudar nas despesas de casa.
Atividades como as realizadas pelos dois meninos de Barbalha são consideradas, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), crime de exploração do trabalho infantil, pois de acordo com o documento, jovens nessa idade não deveriam estar trabalhando, salvo na condição de aprendiz, como explica o artigo 60 do Capitulo V do Estatuto, que nesse caso, não está sendo respeitado.
Em visita a quatro cidades do Cariri, Crato, Juazeiro, Barbalha e Nova Olinda, foram observados alguns problemas em comum, como crianças realizando trabalhos domésticos. Mas, o que mais chamou atenção foram os diferentes tipos de exploração do trabalho infantil. No Crato, por exemplo, existem casos de adolescentes trabalhando na roça, o que tem atrapalhado o desempenho na escola. Já em Juazeiro, são as crianças que, mesmo com a presença de fiscais, continuam no lixão público, que fica na divisa com o município de Caririaçu. Na cidade de Barbalha, adolescentes trabalham nos canaviais e engenhos. Já em Nova Olinda, o problema é com relação aos menores explorados na extração de pedras cariris.
Combate nas pedreirasA conselheira tutelar de Nova Olinda, Maria do Socorro dos Santos, conta que diversas campanhas já foram feitas para combater o trabalho nas ‘pedreiras’, mas como na maioria dos casos são os pais que levam os filhos para trabalhar, a única alternativa encontrada é acionar o Ministério Público Federal (MPF), o que, segundo ela, acontece com frequência. “Esse é um problema gritante em nossa região, mas só o Ministério Público tem o poder de tirá-los de lá”, explicou a conselheira.
O coordenador do Conselho Tutelar do Crato, José Genivaldo de Carvalho, comenta que o Órgão não tem recebido muitas denúncias sobre exploração do trabalho infantil, mas reconhece que existem muitos casos, principalmente na zona rural. Para ele, a maior dificuldade é conseguir convencer os moradores a denunciar os casos. Situação parecida é enfrentada pelo Conselho Tutelar de Juazeiro, que encontra dificuldades em acabar com a exploração de crianças no lixão, por conta da conivência dos pais. “Temos conhecimento do problema, mas não podemos ficar dentro do lixão o tempo todo para fiscalizar”, esclarece a conselheira Marília de Menezes.
Com relação ao trabalho dos dois adolescentes citados na matéria, José Irlando de Matos, do Conselho Tutelar de Barbalha, disse que até então não tinha conhecimento de casos parecidos, mesmo suspeitando que ocorram. Ele se comprometeu em fazer uma visita ao local onde os garotos trabalham e conversar com o dono do terreno. Procurado pela equipe de reportagem, o proprietário explicou que sua intenção é ajudar os garotos, para que eles não fiquem ociosos na rua. “Eu não vou atrás deles. Eles é quem vem aqui, atrás de trabalho, e eu deixo que façam algumas tarefas para mim”, argumentou o dono do terreno em Barbalha.
FONTE:http://www.vejajuazeiro.com.br

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